uma nova espécie
Era uma camionete velha dessas bandeirante; não fosse abrasileirada chamaria Land Cruiser, mas isso não vem ao caso. Uns dez homens sendo levados para a cidadezinha próxima, algo em torno de quinze quilômetros. Eis que paro para dar um recado ao condutor como assim me foi pedido e cumprimento-o logo depois cumprimentando os dois outros trabalhadores que na cabine estavam. Um senhor de cor e um rapaz da cara rosada me olham com muito respeito. Um tipo desconfortável de respeito, pois era eu o filho do ‘patrão’ nesse contexto. O velho homem me estende a mão dizendo “me desculpe a sujeira das minha mãos”. Eu nem liguei pois as minha não estavam lá tão limpas também; acabara de atolar o carro uns metros atrás. Honra para mim pegar nas mãos do homem que trabalha nesse Sol escaldante doze horas ao dia em busca do seu sustento. Milhares de homens como tal pelo país queimando sua pele com uma enxada dia após dia e eu sentindo-me um semi bon-vivant perante ele. Não que eu não dê valor ao trabalho intelectual, em que se desgasta a psicológico muito mais que o físico mas sei que aquele indivíduo não pôde optar entre essas duas modalidades.
Aqui então temos esse senhor. Trabalha roçando diariamente, volta para a casa procurando sono e repouso e vai à igreja aos domingos. Vou pedir o messenger dele para trocar algumas idéias qualquer dia. Quem sabe pergunto o que ele pensa à respeito da situação Brasil - EUA- Chávez . Ou quem sabe recomendo à ele alguma banda inglesa com novas tendências sonoras.
Mas aí que há um problema! O velho homem mal sabe escrever meu deus! Quem sabe até faça algum cálculo para ver o quanto recebeu pelo dia de trabalho. E sim. Milhares, milhões como ele; bilhões se a escala for global. Nós privilegiados pelo acesso à informação continuamos aqui descobrindo e utilizando tecnologias diferentes a cada dia. Ele, pensando se o dinheiro que conseguir será suficiente para a ‘compra do mês’, como os peões dizem. Pena que nem todos os que são excluídos tomam o caminho honesto da coisa.
Frente a esse abismo que separa dois indivíduos pergunto-me se não seria adequado a criação de uma nova espécie descendente do homo sapiens. Sim ! Seria uma justificativa plausível para nossa péssima distribuição de renda, para a violência, para a fome, para a ignorância, para o efeito estufa e um infinidade de outros males em que se pode culpar o próprio homem, não ?! Claro que sim! Que tal nomearmos espécie B ? Culpemos a espécie B então, oras! Posso ver escrito nas manchetes “Indivíduo da espécie B estupra e mata mulher”; logo em seguida “Ora temos que dar um jeito nesses animais”. Simples não ? Você poderia até comprar uns indivíduos da espécie B e forçá-los à trabalhar, ou quem sabe colocá-los numa arena contra indivíduos da espécie A armados – pão e circo !
Bom, só falta descobrir quem vamos subornar para fazer algumas alteraçõezinhas no darwinismo, já que “indivíduos da mesma espécie podem se reproduzir e gerar descendentes férteis”.

